Publicado por: Jotacê | julho 7, 2008

O mercado de locação no Brasil: mais perdido que cego em tiroteio

Cego_em_tiroteio

O post de hoje não é exatamente um protesto, mas uma constatação crítica do que está acontecendo com o mercado de locação brasileiro. Em primeiro lugar, gostaria de dizer que já utilizei muito o serviço de locação de vídeo nos velhos tempos de VHS, em uma época em que não existiam colecionadores de filmes (pois poucas pessoas se aventuravam em arcar com fitas mofadas na coleção) e seriados só chagavam até nós pelos canais (abertos) de TV.

Desde o início de 2005 eu não alugo mais DVD. Foi quando iniciei minha coleção (sim, comecei a colecionar tarde). Lembro que o último DVD que retirei em uma locadora foi o de “Os Incríveis” (no lançamento) e de lá pra cá, invisto na coleção e não em locação, pois penso que o preço que se paga para alugar um DVD é muito alto para ver temporariamente um material que, na maioria dos casos, tem só o filme, muitas vezes mutilado em um dos seus aspectos técnicos (imagem ou áudio). Como valorizo bastante os extras (coisa que quem aluga não dá muita importância), tenho menos motivos ainda para sair de casa para ir até uma locadora.

Mas não é por que não alugo mais filmes que não acompanho o mercado de “empréstimo pago” de filmes. Tenho muita atenção com os fóruns específicos no Orkut (toda semana tem locadora fechando por lá) e nas listas de discussão sobre o assunto, sempre com o intuito de comparar o que está acontecendo não só com os lançamentos, mas também com o comportamento do “mercado” de vídeo no país.

Neste sentido, na semana que passou tive a oportunidade de ler uma entrevista da diretora-executiva da UBV (União Brasileira de Vídeo, entidade que representa as produtoras, replicadoras e distribuidoras de vídeo no Brasil), Tânia Lima, publicada no Jornal do Vídeo desse mês. A entrevista de três páginas é centrada na questão da pirataria e na defesa dos interesses dos representados pela UBV, que não por coincidência foi a mentora da campanha criticada aqui no blog.

Pois bem: para meu total espanto e constrangimento, não há durante toda a entrevista menção ao mercado de venda direta de DVDs, nem como melhorá-lo, nem como ele poderia colaborar para o incremento dos lucros dos representados ou no combate ao Capitão Gancho – o antigo demônio das locadoras (descobri agora que a internet é o principal vilão de quem vive do aluguel de filmes)! Está certo que a publicação é voltada para as locadoras e tal, mas ignorar totalmente o diferencial de venda do DVD para o VHS (que é o mercado de venda direta), por exemplo, foi demais pra minha cabeça.

Destaquei alguns pontos da entrevista, a seguir (para quem quiser ler na íntegra, vá até a página 96 do PDF), grifos meus:

A pirataria seria a principal causa da situação atual do mercado de vídeo?
Hoje a internet é uma ameaça maior do que a pirataria. No sentido de tirar o consumidor de dentro da loja, da frente da televisão. Hoje se fica horas na internet. É o bate-papo, pesquisa, trabalhos. As pessoas não falam mais com ninguém, elas só teclam o tempo todo. O Brasil já está praticamente em primeiro lugar do mundo em termos de uso da internet, com 24 horas/mês de média. A maior parte do nosso público foi perdida para o entretenimento da internet. Aí, depois sim, você tem o problema da pirataria, pela grande disponibilidade. Para ir a uma loja procurar um filme, você tem que se programar para isso. Mas se estiver passando em qualquer esquina, a pirataria está disponível. Comprovadamente, boa parte das compras acontecem por impulso; se não houvesse essa disponibilidade, você nem lembraria que tem produto pirata.

Não é à toa que o mercado de locação está em declínio (a revista traz alguns números sobre este assunto): identificar a internet como vilã da história até tem certo fundamento, dentro do aspecto comportamental do brasileiro. Mas como o mercado de locação está reagindo a tudo isso? Pelo que sei das leituras que faço sobre o assunto, o modelo de negócios é o mesmo da década de 80! Fora as locadoras virtuais (que por amarga ironia estão, justamente, na internet) que cobram mensalidade e você pode ficar com o filme quanto tempo quiser, o que foi feito de lá pra cá em termos de renovação? Absolutamente nada. E o que a UBV poderia colaborar para ampliar não só a locação, mas também a VENDA de DVDs e o combate a pirataria? Será que um controle maior do que está sendo vendido no país não seria uma atribuição dela? Nem falo de preço final para o consumidor, mas será que a UBV não poderia promover uma campanha de incremento de qualidade nos produtos de seus representados? Com certeza, como já cansei de dizer aqui no blog, o Brasil precisa diferenciar o produto original do pirata, pois só assim é que será criado um novo paradigma e uma nova cultura de consumo deste artigo.

Prosseguimos com a entrevista:

Qual a sua estimativa de queda do mercado de rental (locação)?
Comparado com 2006, em 2007 deixamos de vender 2,4 milhões de peças, só no rental. Esse volume multiplicado por um preço médio nacional de locação de, digamos, R$ 4,00 e 30 locações que se fariam, pelo menos, ao longo do ano, dá a dimensão do que a locadora deixou de faturar. Todo mundo perdeu, e perdeu muito. Inclusive o cinema nacional. Pelo artigo terceiro, um percentual de tudo o que é vendido é destinado à produção de filmes nacionais. Então, estimamos que pelo menos 7 ou 8 filmes grandes, de ponta, deixaram de ser produzidos. A nossa participação na produção nacional é importante.

Realmente, os prejuízos são grandes, e interferem em mais de uma dimensão da economia. Não é demais lembrar que foi justamente entre 2006 e 2007 que a maioria das produtoras começou com a esculhambação de seus produtos, com edições cada vez mais porcas, estojos de baixa qualidade e produtos cada vez mais parecidos com os vendidos pelos camelôs (coisa que quem aluga TAMBÉM percebe). Ao invés de contra-atacar com um aumento de qualidade, resolveu imitar a “concorrência”, deixando o produto cada vez mais com cara de saquinho plástico. Daí o sujeito que aluga pensa: “pago o mesmo (ou menos) que essa locação no camelô, e o DVD será meu! Já que não tem diferença entre o da locadora e o do camelódromo, vou comprar do Zé que é meu amigo e me dá garantia”! 

Segue a Sra. Tânia:

Você trabalhou muitos anos na área de vendas de distribuidoras. Agora, como diretora-executiva da UBV, como vê a situação atual do mercado?
O mercado tinha um tamanho, viveu uma crise, houve uma retomada com o DVD e entrou em crise novamente. […] O Blu-ray vem como um estímulo, mas não saberia dimensionar o tamanho desse novo mercado. Lembro que ninguém esperava, também, que o DVD fosse provocar aquela explosão toda. Para mim ainda é uma incógnita, até porque não tenho mais contato direto com vendas. Fomos tirados de nossa zona de conforto e estamos novamente numa fase de aprendizado. Nós viemos com um modelo de locadora nos últimos 25 anos. Mudou a fachada, a cor do móveis, mas o modelo de negócio é exatamente o mesmo. E com novas alternativas de entretenimento surgindo. Essa estagnação pode ter levado a uma perda natural. […] Mas uma coisa é certa: lugar de filme é na locadora. Não é na livraria, não é no magazine. Ele pode estar também dentro de uma loja de departamentos, dentro de um supermercado. Mas será apenas mais um entre os milhares de itens. Não quero desmerecer o varejo, mas ressaltar a importância da locadora como loja de filmes, e não apenas para locação.

Confesso que fiquei pasmo com o que foi dito nesta última parte da resposta (em vermelho). Tentei por várias vezes, lendo e relendo, interpretar de outra maneira o que foi dito, mas não consegui. Está claro, pelo que está escrito, que o mercado de venda direta não interessa aos representados pela UBV. Ao contrário da maioria dos países desenvolvidos economicamente, aqui no Brasil, DVD não é artigo de consumo como outro qualquer.  É artigo de locação, QUE ATÉ PODE SER VENDIDO. Foi a partir dessa declaração que fiquei refletindo sobre a pouca importância que os colecionadores têm aqui no país, pois se DVD é para estar apenas na locadora (mesmo que para ser vendido), a UBV, através de sua representante, não o considera como artigo a ser popularizado. Se o intuito é defender a vida das locadoras com isso, deveriam estimular REALMENTE a venda através deste canal. Porém acredito que a maioria dos donos de locadora não pensa em vender algo tão caro e com qualidade tão baixa como são os DVDs brasileiros. E até entendo que, para ele, é mais negócio seguir locando, do que se entupir de DVDs, pois de qualquer maneira com esse tipo de produto que está sendo feito aqui, todo mundo vai seguir comprando em camelô, pelo que exemplifiquei no comentário da resposta anterior.

A entrevista prossegue (vale a pena ler tudo), mas encerro por aqui dizendo que, através destes trechos da entrevista, podemos perceber tudo o que está acontecendo com o mercado de locação brasileiro e com os colecionadores tem uma causa comum: a ausência de uma estratégia realmente estruturada, articulada e que tenha como objetivo ampliar as vendas e as locações de DVDs através de sua qualificação. E é uma pena que isso aconteça também com as locadoras (presentes há anos nas nossas vidas), pois mesmo que sejam “duras de matar”, estão, por tudo isso que foi tratado aqui, “mais perdidas que cego em tiroteio”.

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Responses

  1. Perfeita análise da entrevista, JC!

    Também não consegui interpretar o trecho em vermelho de outra forma forma senão essa: “Mercado de venda direta?? Deus me livre!!”

    Esse tipo de pensamento é o que leva nosso mercado de DVDs a ter absurdos como Slim, Scanavo e outras monstruosidades!!

    Mantenha a luta JC!!!

  2. Assim como você JC, desde 2006 eu não alugo filme nenhum, prefiro comprá-los com certeza. Até porque, assisto aos filmes no cinema, se gostei, espero 1 ou 2 meses depois do lançamento e compro em alguma super promoção da americanas ou submarino. Minha mãe sempre alugou filmes (e eu antes de 2006 também), toda semana ela ia à locadora e pegava sacolas com 10 filmes pra ela e meu pai assistirem durante o final de semana. Não que a minha mãe não saiba o que é pirataria, claro que sabe, mas ela não é o tipo de pessoa que vai procurar pra comprar, porém, ela trabalha no conselho regional de medicina e, de desde então, ela compra de um cara que passa por lá vendendo. Por que a minha mãe fez a seguinte conta: eu vou à locadora e alugo 10 filmes (em geral ela pega catálogos) e gasto 25,00, o Fulano vem até o meu trabalho, traz um baita catálogo dos filmes que ele tem, que por sinal é maior que o da locadora dela, ela escolhe 10 filmes e no dia seguinte ele leva pra ela por 20,00, ou seja, ela continua gastando por volta de 20,00 reais só que o filme é dela. Como ela não liga pra embalagem e nem para extras, a coisa fica bem fácil. Já tentei de todas as formas convencê-la a fazer o contrário e não estimular a pirataria, mas confesso que me falta argumentos. Disse ela uma vez: se a locadora me desse algum tipo de vantagem por alugar lá, eu até pensaria 2 vezes, mas o preço é o mesmo, não tem uma grande quantidade de filme, não tenho porque continuar alugando. Não estou dizendo que o que a minha mãe faz é correto, mas a verdade é que a locadora pra tentar se manter, ao invés de estimular a locação, ou trazer algum diferencial como você diz JC, estrangula os poucos que ainda utilizam da locação pra tirar deles algum lucro, ou seja, os poucos que vão ainda são explorados. Não estou dizendo que todas as locadoras são assim, mas boa parte das que eu freqüentava, são. É um absurdo uma blockbuster cobrar 7/10 reais por um lançamento, e o camelô vender à 2 reais. Essa senhora Tânia ta completamente equivocada e levando cada vez mais as locadoras para o buraco. Ela não se importa com qualidade, com preço, com marketing para lançamentos, ela se preocupa com a Internet e com o colecionador. Ninguém mais poderá colecionar só porque diminui os clientes de uma locadora??? Faça-me o favor!!!! Eu acho que precisa de um plano muito mais amplo do que simplesmente culpar Internet.

  3. Eu vou adicionar o seu blog nos links de meu blog, pois além de bom, mostra o desrespeitos que locadoras e distribuidoras estão tendo com o consumidor.

    Uma sugestão para o próxima Dose Diária de Inveja, a maleta com as 10 temporadas de Friends, enquanto nos EUA, dentro da maleta é um digipak, além de ter um guia de episódios, no Brasil é só aquelas capinhas iguais a versão que a Warner está lançando seus DVD´s atualmente

    No Amazon você acha fotos da caixa de Friends e vai entender o que eu falo

  4. @Karyn: certamente se a sua mãe não tem o perfil de colecionador, por isso ela compra DVDs assim. E pirataria é questão cultural do brasileiro, muito difícil mudar esse hábito.

    @Guilherme: agradeço muito o link e já anotei a sugestão!

  5. Putis,é foda cara eu ainda alugo uma ou outra vez, e cada vez mais vejo o descaso das distribuidoras Brasileiras,e são por causa dessas senhoras ai que o nosso país não vai para frente….

    Escuta JC,onde você conseguiu o Jornal do Video ?

  6. Céus! Só faltou falar que nós, colecionadores, somos culpados pelo fato de o mercado de locação estar indo pro saco. 😐

  7. Cara isso tem muitas facetas, a mais óbiva da entrevista é q tendo lendo o q passa na cabeça da representante da entidade dá pra se ter uma idéia de porque esse mercado está afundadno. A dona Tânia tem umas opiniões surreias, e se elas refletem a opinião desse mercado em geral, já dá pra ter noção do tamanho do problema… Não vou me alongar mais agora pq quero ler a entrevista toda antes de opinar mais aprofundadamente e agora to sem tempo de ler tudo, mas vale lembrar só como mais um componente ao debate, q nos EUA um DVD lançamento custa 25 dolares pra locadora, aqui sai por 120 reais…

  8. O problema do mercado de locação que agora tem mais gente pra comer o mesmo bolo.

    Antes, os lançamentos eram em cinema, vídeo e tv, com uma grande janela entre eles. Agora, temos cinema, locadora, pay-per-view, tv por assinatura e tv aberta (com uma janela menor).

    Isso sem contar a pirataria e a venda em varejo.

    E como a Sra. Idiota deixou evidente, o sistema de locação no Brasil é arcaico e os donos de locadora (ainda) pagam caro por filmes que cada vez mais, tem menos vida útil.

  9. Por isso que eu digo, se tivesse um plano mais amplo de controle de venda dvds piratas, já tem dvd pirata sendo vendido em feira de produtos orgânicos!!!!!!! É para acabar mesmo. O que eu acho que, apesar de ser um hábito o tal “jetinho brasileiro”, isso poderia ser mudado. Se eu conseguisse convencer pelo menos minha mãe que, se ela não tem interesse em coleção, que pelo menos alugue então, já estaria de bom tamanho. Mas as locadoras, como eu disse acima, também não cooperam, e, após ler a entrevista da Sra. Tânia, me parece que não mudará tão cedo. Na verdade, nem alguns de nós colecionadores cooperamos entre nós mesmos. Eu participo de uma comunidade de DVd no Orkut (que não é a viciados em DVD – EE). No final do mês passado surgiu a polêmica do DVD Sweeney Todd, por conta da divulgação de edição dupla e na verdade era simples. Nesse tópico, onde estava se discutindo o descaso da Warner e da maioria das distribuidoras, 1 primeira pessoa escreveu assim: “Ainda bem que esse DVD não está na minha lista de compras”. Depois vieram várias pessoas invadindo o tópico e colocando “Ainda bem que esse DVD não está na minha lista de compras” [2] …[3]…[4], etc. O que é mais absurdo é, numa comunidade onde se diz de colecionadores, não há o menor respeito entre a “classe”. Eu posso não gostar de Western, por exemplo, mas me solidarizo com as pessoas que gostam e que querem ter edições caprichadas dos seus filmes prediletos. É ridículo que nem nós mesmos não consigamos nos unir e exigir respeito. Eu quero edições caprichadas de musicais, filmes antigos, lançamentos, western, séries, etc…… vou brigar por respeito de uma forma geral e não só para os filmes que eu gosto. Isso é um absurdo também!!!

  10. “Eu quero edições caprichadas de musicais, filmes antigos, lançamentos, western, séries, etc…… vou brigar por respeito de uma forma geral e não só para os filmes que eu gosto.”

    Tem razão. Costumo apelar pra DVDs de outras regiões quando a edição daqui é ruim (o que infelizmente está se tornando algo cada vez mais comum), mas nem por isso vou chegar e dizer: “Azar de quem precisa de legendas”. Entre uma edição importada e uma nacional caprichada, prefiro a nacional, ainda mais porque muitas vezes meus familiares querem ver o filme e eles não dominam o inglês. Se os próprios colecionadores não se importam, quem se importará? As distribuidoras? Certamente que não. E quem quiser ficar esperando que elas se sensibilizem é bom esperar sentado, de preferência numa poltrona bem confortável. Nós é que temos que fazer barulho, boicotar edições ruins, reclamar (e, claro, elogiar também porque às vezes eles acertam). E o blog se tornou um ótimo canal pra expormos nossas opiniões e insatisfações (valeu, JC!). Sei que pra muitos é uma discussão que cairá em ouvidos moucos, como dizia minha avó, mas não fazer nada é dar a eles carta branca pra lançar qualquer porcaria no mercado de varejo e ainda acharem que estão nos fazendo um favor.

  11. JC, o link pra acessar a íntegra da entrevista não funfra….

  12. @Fábio: o link agora está com problemas mesmo. Devem ter tirado do ar ou o servidor engasgou!

  13. Karyn e Patricia, muito boas suas ponderações.
    Só acho que às vezes o pessoal diz isso de “ainda bem que o DVD tal não está na minha lista…” não para fazer pouco de quem gosta do filme e quer o DVD com qualidade, mas apenas para conversar descomprometidamente mesmo. Aliás, não deixa de ser um recado para as distribuidoras. Eu, por exempo, já cansei de comprar DVDs de filmes que não estavam na minha “lista” apenas porque o produto DVD, com todo o seu valor agregado, era bom.


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